domingo, março 7

Entre o sagrado e o profano

Fonte: Acessa.com

Por: Jussara Hadadd, Filósofa e Terapeuta Sexual Feminina

Em tempos onde a Filosofia e a busca por sabedoria estão em alta, onde as religiões começam a ser respeitadas ou conscientemente desprezadas em seus pontos de vista, ouve-se muito falar de questões mais elevadas que envolvem a sexualidade humana. Muitas dúvidas sobre o comportamento sexual estão latentes e buscam esclarecimento para o que pode ou não comprometer nossa dignidade e nossa evolução moral, intelectual e espiritual. Bom isso não é? Elevação através de uma preocupação com o que se faz com o corpo e com a alma perante a necessidade carnal e energética de fazer sexo? Preocupação e lembrança de sermos bem mais que animaizinhos seguidores de seus instintos o que em uma visão muito errônea se baseiam algumas pessoas para praticarem sexo sem “pé e nem cabeça”. Os animaizinhos ainda são melhores que nós neste sentido.

Pois é, finalmente o homem, depois de muitas voltas retornou a este ponto. Ainda não podemos afirmar que esta é uma questão comum, discutida em rodinhas de amigos, mas já é bem expressivo o posicionamento de algumas pessoas de meio mais elevado, no tangente às maneiras de encarar o comportamento sexual do ser humano.
Intrínseco à fertilidade e ao prazer, o sexo pode ser um impulso para a evolução da alma. O importante é dominar este poderoso instinto de vida e conseguir canalizar a energia para você e para este fim. Sexo e espiritualidade, conforme nos conta a história, compartilharam os redutos da alcova de forma complicada. Ao mesmo tempo em que compunha ritos sexuais de algumas religiões, noutros procuravam suprimi-la, tolhendo sua expressão. Ainda hoje muitas religiões pregam a sublimação das necessidades sexuais ou sua canalização para formas socialmente admitidas, como o matrimônio.
Contradizendo este conceito de inserir a alma aos preceitos da igreja e o corpo à cama, o sexo sagrado é um caminho que propõe a experimentação da união da sexualidade com a divindade. A sexualidade sagrada intensifica o crescimento da alma trilhando caminhos através da mudança comportamental de cada indivíduo concebida por uma nova consciência sexual.
Os rituais de sexo sagrado foram uma prática comum em diversos povos por quase um milênio e exaltavam as Deusas personificadas pelas prostitutas ou sacerdotisas do templo que emprestavam seus corpos aos homens para quem elas deveriam dançar sensualmente, se perfumar, e deitar com seu amante no leito, onde manteriam relações sexuais até atingirem o êxtase amoroso, a verdadeira porta para encontrar o divino.
Na tradição tântrica da Índia antiga, a energia sexual era vista como uma ferramenta para o desenvolvimento humano e elegemos a visão do tantra para tratar desse assunto aqui com vocês por compor uma filosofia que muito nos alegra e da qual detemos um bom conhecimento. Existem outros aspectos, é claro. Poderíamos citar o Taoísmo que também cuida do assunto com a maior delicadeza, mas sigamos através do Tantra que é belíssimo.
No Tantrismo, Shiva (o homem), “não copula com uma vagina, mas se une a um ser integral, à mulher psíquica, física e cósmica, ou seja, à encarnação da Deusa Shakti”. A energia sexual flui dos órgãos sexuais e caminha por todo o corpo, cada célula deve vibrar e, assim, despertar a energia Kundalinî que dorme enrolada na base da nossa coluna vertebral (representada por uma serpente). Para os hinduístas, Kundalinî é a energia criativa que está na nossa consciência. Quando estamos impregnados desta energia criativa, então estamos vivendo plenamente nosso potencial. Este é o princípio do Tantra Yoga. Não admira que o êxtase sexual seja considerado um estado alterado de consciência! O sexo é uma meditação a dois e qualquer ato sexual, um acontecimento sagrado.
Sexualidade e espiritualidade são inseparáveis no hinduísmo. Entoar mantras para uma deidade será algo sagrado? E o ato sexual, o Maithuna, será algo profano? O que é Profano e o que é Sagrado? Para os hinduístas é muito mais profano realizar um ritual mecânico, diante de uma imagem que adorar a Shakti na comunhão dos corpos.
Os conhecimentos acerca da sexualidade sempre participaram da cultura e da educação do povo da Índia antiga, que lamentavelmente sofreu grande impacto por causa da influência ocidental ao ser influenciado pelo rigor moral cristão (e acho que Cristo nunca disse nada disso e nem dessa maneira), onde o sexo era visto como obra do demônio, e a mulher uma feiticeira sujeita à fogueira, no mesmo fogo que acende o desejo nos homens. É fato que a abordagem e o parâmetro da orientação sexual da Índia hinduísta está muito além daquilo que o limitado Ocidente vê.
Quando Vatsyayana recitou os sagrados Sutras, passando os ensinamentos dos Sastras, através do Kama Sutra, ele deu amplo enfoque filosófico, bem como respeitou os costumes sociais vigentes, além de apresentar, na prática, um tratado de psicologia. Infelizmente, não podemos negar que os ensinamentos destas filosofias milenares foram muito deturpados e seus textos preciosos reduzidos a manuais de posturas sexuais. Que pena, muito embora esta fantástica Arte do Sexo venha sendo praticada há milênios não apenas na Índia, mas na China e no Tibet, aqui no Ocidente ela é vista somente como um fetiche sexual capaz de magicamente proporcionar mega orgasmos, fim ultimo de todo envolvimento íntimo de quem não se interessa por nada além do exatamente palpável.
O tantrismo autêntico nos oferece um panorama de possibilidades que não encontram equivalentes na nossa sociedade secular moderna. O tantrismo, ou tantra, mostra que o desejo sexual não pode simplesmente ser situado no orgasmo nem sublimado na filosofia e na arte, e pode ser transmutado até chegar a um ponto em que toda mente corpórea fica ao mesmo tempo erotizada e transcendida. Feuerstein, Georg – A Sexualidade Sagrada – Ed. Siciliano – Pag. 166
Sob esta ótica podemos afirmar que, mesmo que profano, mas cercado de boas intenções onde o prazer se mistura à possibilidade de uma felicidade a dois, não importa se para sempre ou não, esta energia ainda pode ser aproveitada no contato sexual. Profano no sentido de rotineiro, obrigatório, sem propósito maior, feito porque tem que ser feito. Sexo Profano no sentido da não consciência do que possa ser Sagrado. Mas, Deus recebe em seus braços as crianças, os pobres e os ignorantes.
Entretanto, no sexo irresponsável, aquele que transgride o próprio homem no que ele concebe como certo e errado, aquele que violenta sonhos, que destrói esperanças, que quebra ilusões, que fere almas, que dilacera corpos, que petrifica corações, que balança os valores perenes, este que consideramos promíscuo, ao contrario do que se pensa, não canaliza de forma alguma energias positivas, muito pelo contrário, compromete grandemente o fluxo enérgico em quem o pratica, acelerando a perda do fluido vital e levando estes seres à imbecilidade, à velhice e a morte física precoce com sérios comprometimentos em sua evolução espiritual.
É uma visão, pode ser apreciada ou não, apoiada ou não, admitida ou não.
Namastê.

Jussara Hadadd é Filósofa, Pós-Graduanda em Filosofia Clínica, Terapeuta de Mulheres, Escritora e Consultora de Sexualidade

Fotografias: Maria Teijeiro e Eryk Fitkau  

Onde Aprender: Academia de Yoga

2 comentários:

Paulo Borges disse...

A sexualidade pode ser uma via muito séria para o desenvolvimento espiritual... Tenho no meu site um ensaio sobre "Eros e Iluminação na tradição tântrica".

Serafina disse...

Porque não o coloca aqui, Paulo?

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