sexta-feira, março 19

Opinião: A educação segundo António Câmara

Carlos Fiolhais, físico, destaca no blog De Rerum Natura: Sobre a natureza das coisas um excerto de uma entrevista dada por António Câmara, professor da Universidade Nova e CEO da YDreams à revista "Executive Digest" de Março de 2010:

P- Em termos de educação, como é que vê e analisa este quase admirável mundo novo num país onde, paralelamente, ainda existe muita ardósia e giz?


R- Não são mundos incompatíveis. Um dos grandes problemas de Portugal é que se esqueceu por completo a língua... Repare, uma das avaliações que fazemos internamente é saber qual é a diferença entre nós que estudámos em Portugal, e também lá fora, e os líderes mundiais nas diferentes áreas...
A primeira vez que percebi e entendi a verdadeira diferença foi em 1998 quando fui viver para Boston para um bairro judeu e coloquei o meu filho mais velho numa escola pública mas dominantemente judia. A educação nesta escola era simplesmente fantástica e tinha três componentes completamente diferentes da educação em Portugal. A mais chocante delas, aquela que nos deixava a anos-luz, era o ensino da língua que era a um nível perfeitamente superior. Qualquer miúdo de 12 anos lia um livro por semana, aprendia 400 palavras novas por semana e escrevia um livro no final do ano.
Aprendia a falar em público, aprendia a expor, aprendia a consultar livros numa biblioteca, aprendia a criticar, aprendia todos os estilos de exposição... Nós nunca aprendemos isto em Portugal. O máximo que aprendemos foi a análise morfológica das frases, mas não jamais a fazer a transição entre as frases.
Depois de perceber como é que funcionava o ensino da língua naquela escola, tive imensa curiosidade em conhecer o professor que, dois anos depois, estava em Harvard.

P- Mas este tipo de educação não é comum mesmo nos Estados Unidos...

R- Não, não é. Esta é a educação de uma elite específica que tem um poder nos Estados Unidos perfeitamente gigantesco, exactamente porque tem uma educação incomparavelmente superior. O domínio da língua consegue-se através da leitura e da escrita. É fundamental e o computador, seja ele qual for, vem no fim.
Por isso, e para concluir, a elite portuguesa quando comparada com a elite mundial está a anos-luz e esbarra, logo à partida, no domínio da língua.
A segunda componente tem a ver com a imaginação. Em Portugal ninguém percebe o que é a imaginação e a criatividade. Numa universidade, analisando as cadeiras que os estudantes têm, quantas é que apelam à imaginação? Talvez duas em 50! Ou seja, a maior parte das pessoas que cumpre as licenciaturas são, eventualmente, muito bons naquilo que os professores ensinam, são bons a resolver charadas... mas não há nada que estimule a criatividade, a imaginação (...).

P- E a terceira componente?

R- É algo que verdadeiramente nunca pensei que acontecesse. Quando o meu filho estava nessa escola, comecei a perceber que ele tinha exercícios completamente diferentes. Durante um mês vinha com problemas desse género: "Quantas lâmpadas existem no estado do Massachusetts?"; no dia seguinte, "diga quantas pessoas vão à praia da sua cidade"... Ou seja, comecei a perceber que estes exercícios estavam ligados ao "back of the envelope engineering", isto é , como é que lidamos com a incerteza, com aproximações, quando não temos os dados todos.
É que este tipo de análise está sempre presente nas nossas vidas profissionais e pessoais e daí que seja tão importante ser estimulada desde cedo (...).

P- O problema da educação em Portugal é meramente político?

R- Há várias coisas... Nós não damos liberdade às diferentes escolas para fazerem o que lhes apetece. Está tudo centralizado numa avenida de Lisboa... Claro que é uma questão política. E de liberdade."

1 comentários:

Magno Jardim disse...

Não poderia estar mais de acordo com o que aqui foi dito por António Câmara.

Cordialmente
Magno Jardim

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