quinta-feira, março 25

Um psiquiatra fala sobre a depressão e a tristeza

O Dr. Luís Ferreira é psiquiatra e director de Serviço do Hospital Magalhães Lemos. Este artigo dele, no site Médicos de Portugal, surpreende. Trata-se de um psiquiatra, mas de um que, obviamente, vê o ser humano por inteiro e aborda estes temas com essa visão, uma visão do Outro. É com prazer que partilhamos com os leitores esta visão sensível, na nossa procura do bem-estar de corpo e alma e do melhor que existe no Ser Humano.


Toda a gente se sente triste de vez em quando. Há pessoas que se sentem tristes muitas vezes e outras que são tristes de si - de maneira de ser.
Clinicamente fala-se de depressão quando o humor está muito abatido (a tristeza é profunda) ou há ane-donia (incapacidade para o prazer) e quando tudo isso, estando presentes outros sintomas, leva a marcado sofrimento e a limitações do funcionamento social ou da sobrevivência.
Como se imagina, as fronteiras entre tristeza ou infelicidade normal, estados de humor deprimido ligeiro (por vezes reactivo a problemas) e depressão grave são frequentemente difíceis de definir. No entanto, a diferença entre estes estados é enorme.
A depressão, que nem sempre é evidente mesmo quando grave, pode ser devastadora nas suas consequências e não raramente acaba no suicídio. Deve, por isso, ser activamente procurada pelos clínicos e tratada com todos os cuidados e recursos.

Por outro lado, a tristeza e alguns estados de humor depressivo menos graves podem constituir-se como reacções adequadas a problemas pessoais, a stress no trabalho ou mesmo como reacções ao sistema de organização social.
O elevadíssimo aumento das perturbações depressivas diagnosticadas nos últimos 50 anos, segundo dados epidemiológicos da Organização Mundial de Saúde, e o concomitante acréscimo no consumo de consultas e de medicamentos antidepressivos reflecte, provavelmente, o aumento do reconhecimento ou da prevalência de estados depressivos ligeiros e de sentimentos de tristeza/mal estar que, entretanto, foram sendo medicalizados - a "medicalização da infelicidade".
Sabe-se que os tratamentos psiquiátricos, sejam eles quais forem, são mais eficazes nas depressões severas do que nas ligeiras.
Ora se a tristeza e as "depressões ligeiras" podem até ser úteis na criação de respostas alternativas e beneficiam pouco com os tratamentos, valerá a pena diagnosticá-las e tratá-las?
Muitos julgam que não, até porque esses "tratamentos" não estão desprovidos de potenciais inconvenientes tanto a curto como a longo prazo. Suspeita-se que a utilização indiscriminada de medicamentos antidepressivos possa favorecer a recorrência de estados depressivos e de outras perturbações do humor cíclicas. Não se sabe se a própria criatividade pode ser negativamente afectada nesses casos.
A obsessão com o crescimento económico e a fé cega na cultura do trabalho parecem não estar a dar bons frutos em ter-mos de saúde mental das pessoas e de saúde física do plane-ta. Claro que no sistema vigente as dificuldades de uns são sempre oportunidades de negócios para outros e até de eventual descida do défice das contas públicas.
E o bem-estar, a harmonia com o mundo, a ética, a estética e a racionalidade?
Pode ser que venham a ser conquistados pelos descontentes e tristes num futuro em que o tempo para pensar e fruir seja retirado ao tempo para produzir e poluir; em que o desenvolvimento ameaçador para a vida na Terra seja desencorajado como o uso do tabaco; em que muitos dos gestores e economistas de hoje sejam substituídos por cientistas, filósofos e poetas; em que a China mude antes de implodir; e em que os Invernos da alma sejam vistos como prelúdios necessários às Primaveras.

Dr. Luís Ferreira,
Psiquiatra e director de Serviço do Hospital Magalhães Lemos

1 comentários:

Magno Jardim disse...

"A obsessão com o crescimento económico e a fé cega na cultura do trabalho parecem não estar a dar bons frutos em ter-mos de saúde mental das pessoas e de saúde física do plane-ta."

"E o bem-estar, a harmonia com o mundo, a ética, a estética e a racionalidade?
Pode ser que venham a ser conquistados pelos descontentes e tristes num futuro em que o tempo para pensar e fruir seja retirado ao tempo para produzir e poluir;"

"e em que os Invernos da alma sejam vistos como prelúdios necessários às Primaveras."

"Ora se a tristeza e as "depressões ligeiras" podem até ser úteis na criação de respostas alternativas e beneficiam pouco com os tratamentos, valerá a pena diagnosticá-las e tratá-las?"

"Claro que no sistema vigente as dificuldades de uns são sempre oportunidades de negócios para outros e até de eventual descida do défice das contas públicas."

"Por outro lado, a tristeza e alguns estados de humor depressivo menos graves podem constituir-se como reacções adequadas a problemas pessoais, a stress no trabalho ou mesmo como reacções ao sistema de organização social."

"Trata-se de um psiquiatra, mas de um que, obviamente, vê o ser humano por inteiro e aborda estes temas com essa visão, uma visão do Outro."

Cordialmente.

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