sábado, março 6

Terão as pessoas mais amáveis uma vantagem evolucionária?

Por Yasmin Anwar, UC Berkeley
http://www.alternet.org/story/145888/

Pesquisadores da Universidade da California, Berkeley, estão a desafiar as antigas crenças de que os seres humanos estão programados para serem egoístas. A partir de uma longa série de estudos, os cientistas sociais estão a reunir um crescente conjunto de evidências que demonstram que estamos a evoluir para nos tornarmos mais compassivos e colaborativos na nossa luta pela sobrevivência e pelo sucesso.
Em contraste com as interpretações do "cada um por si" da teoria da evolução de Charles Darwin através da selecção natural, Dacher Keltner, um psicólogo da Universidade de Berkeley e autor do livro Born to be Good: The Science of a Meaningful Life (Nascer para ser Bom: a Ciência de uma Vida com Significado) e os seus colegas estão a desenvolver uma teoria de acordo com a qual os humanos são bem sucedidos como espécie exactamente por causa das suas características de altruísmo, capacidade de cuidar e compaixão.

Chamam-lhe a "sobrevivência dos mais amáveis."
"Por causa da vulnerabilidade dos nossos bebés, a tarefa essencial para a sobrevivência humana e reprodução genética é cuidar dos outros," diz Keltner, co-director do Centro de Ciência Um Bem Maior da Universidade de Berkeley. "Os seres humanos sobreviveram como espécie porque desenvolveram a capacidade de cuidar daqueles em necessidade e de cooperar. Tal como Darwin há muito tempo resumiu, a simpatia é o nosso instinto mais forte."

Empatia nos nossos genes
A equipa de Keltner está a analisar de que forma a capacidade humana de cuidar e cooperar está activa em determinadas regiões do cérebro e do sistema nervoso. Um estudo recente encontrou evidências fortes de que muitos de nós somos geneticamente predispostos à empatia.
O estudo, liderado pelas estudantes graduadas Laura Saslow e Sarina Rodrigues da Universidade do Estado de Oregon, concluiu que aqueles que têm uma variação particular no receptor genético de oxitocina estão mais aptos a lerem os estados emocionais dos outros e sofrem de menos stress em circunstâncias de tensão.
Conhecida informalmente como a “hormona do abraço", a oxitocina é segregada na corrente sanguínea e no cérebro, onde promove a interacção social, o cuidado pelos outros e o amor romântico, entre outras funções.
"A tendência para sermos mais empáticos pode ser influenciada por um único gene," diz Rodrigues.

Quanto mais damos, mais respeito obtemos.
Enquanto os estudos indicam que a capacidade de nos ligarmos aos outros contribui para uma vida mais saudável e com mais significado, a pergunta que alguns dos pesquisadores da Universidade de Berkeley estão a fazer é, "De que forma estes traços asseguram a nossa sobrevivência ou elevam o nosso status entre os nossos semelhantes?"
Uma das respostas, de acordo com o psicólogo social e sociólogo dessa Universidade, Robb Willer, é a de que quanto mais generosos somos, mais respeito e influência obtemos. Num estudo recente, Willer e a sua equipa deram aos participantes uma modesta soma de dinheiro e instruiram-nos para entrarem em jogos de crescente complexidade que teriam como resultado “o bem comum”. Os resultados, publicados no jornal American Sociological Review, demonstraram que os participantes de agiram de forma mais generosa receberam mais dádivas, respeito e cooperação dos seus pares e obtiveram uma maior influência sobre eles.
"Os resultados sugerem que quando alguém age somente em função do seu interesse pessoal e egoísta é desprezado, desrespeitado e mesmo odiado." diz Willer. "Mas os que se comportam de forma generosa para com os outros são muito estimados pelos seus pares e, desta forma, acabam por obter um status mais elevado."
"Se pensarmos em quanto podemos ganhar com a generosidade, os cientistas sociais interrogam-se cada vez menos sobre os motivos pelos quais as pessoas são generosas e cada vez mais sobre o motivo que as leva a ser egoístas," acrescentou.

Cultivando o bem maior
Estes resultados validam as conclusões dos pioneiros da “psicologia positiva” como Martin Seligman, um professor da Universidade da Pennsylvania, cuja pesquisa no início dos anos 90 se afastou da doença mental e da disfunção, mergulhando no optimismo e resiliência humanos.
Não obstante muita da psicologia positiva que está a ser estudada nos EUA dê enfoque à satisfação pessoal e à felicidade, os pesquisadores de Berkeley concentraram as suas investigações sobre como é que isto pode contribuir para um maior bem social.
Um dos produtos deste trabalho é o Centro de Ciência um Bem Maior, um íman da costa Oeste para a pesquisa sobre gratidão, compaixão, altruísmo, capacidade de nos maravilharmos e paternidade/maternidade positivos, cujos patrocinadores incluem o Instituto Metanexus, Tom e Ruth Ann Hornaday e a Fundação para a Qualidade de Vida (Quality of Life Foundation).
Christine Carter, Administradora Executiva do Centro, criou o site na Internet Science for Raising Happy Kids (Ciência para Educarmos Crianças Felizes), cujo objectivo, entre outros, é assistir e promover a educação de crianças que sejam “emocionalmente literatas”. Carter transforma pesquisa rigorosa em conselhos práticos para os pais. Ela diz que muitos pais estão já a afastar-se de actividades materialistas e competitivas e a concentrar-se no que pode trazer às suas famílias uma verdadeira felicidade e bem-estar.
"Descobri que os pais que começaram conscientemente a cultivar a gratidão e generosidade nas suas crianças rapidamente verificam que estas se tornam mais felizes e resilientes," diz Carter, autora do livro Raising Happiness: 10 Simple Steps for More Joyful Kids and Happier Parents (Educar a felicidade: 10 Passos Simples para Crianças Mais Alegres e Pais Mais Felizes), que estará nas livrarias a partir de Fevereiro 2010. "O que é muitas vezes surpreendente para os pais é quão mais felizes eles próprios se tornam."

O toque simpatético
Quanto aos universitários, o psicólogo de Berkeley Rodolfo Mendoza-Denton descobriu que amizades inter-raciais e interculturais podem melhorar a experiência social e académica dos alunos. Num conjunto de resultados, publicados no Journal of Personality and Social Psychology (Jornal de Psicologia Social e Personalidade), ele concluiu que os níveis de cortisol de estudantes anglo-saxões e latinos diminuia à medida que aprendiam a conhecer-se numa série de encontros informais. O cortisol é uma hormona que dispara com o stress e a ansiedade.
Entretanto, na investigação sobre as raízes neurobiológicas das emoções positivas, Keltner e a sua equipa estão a aproximar-se da acima mencionada oxitocina bem como do nervo vago, um sistema exclusivo dos mamíferos que se liga a todos os órgãos do corpo e regula o ritmo cardíaco e a respiração.
Tanto o nervo vago como a oxitocina desempenham um papel na comunicação e na tranquilidade. Num estudo de Berkeley, duas pessoas separadas por uma barreira tentaram, à vez, comunicar emoções uma à outra, tocando-se uma à outra através de um buraco na barreira. A maior parte das vezes, foram bem sucedidas em comunicar simpatia, amor e gratidão e até em aliviar uma grande ansiedade.
Os pesquisadores conseguiram observar pela actividade de resposta à ameaça na região do cérebro que muitas das participantes femininas desenvolveram ansiedade enquanto esperavam pelo toque. Assim que sentiam o toque simpatético, o nervo vago era activado e a oxitocina libertada, acalmando-as imediatamente..
"A simpatia é algo que de facto é inerente aos nossos cérebros e corpos; e espalha-se de uma pessoas para a outra através do toque," diz Keltner.
O mesmo acontece com os mamíferos mais pequenos. A psicóloga de Berkeley Darlene Francis e Michael Meaney, um professor de psiquiatria e neurologia biológica da Universidade McGill, descobriram que os bebés ratos cujas mães regularmente os acarinhavam, lambendo-os e limpando-os tinham níveis reduzidos de hormonas do stress, incluindo cortisol e tinham, de uma forma geral, sistemas imunitários mais robustos.
De uma forma geral, estes e outros estudos da Berkeley desafiam a crença de que as boas pessoas têm menos hipóteses e, pelo contrário, apoiam a hipótese de que os humanos, se forem acarinhados e apoiados, tendem a caminhar pelo lado da compaixão.
"Esta nova ciência do altruísmo e os argumentos fisiológicos da compaixão estão finalmente a alinhar-se com as observações de Darwin, de há quase 130 anos atrás, de que a simpatia é o nosso instinto mais forte," diz Keltner.

© 2010 UC Berkeley All rights reserved.
Leia o original desta história em: http://www.alternet.org/story/145888/

5 comentários:

tempero de minas disse...

de certeza

Paulo Borges disse...

Esta investigação científica confirma o que as grandes tradições sapienciais da humanidade desde sempre afirmaram! Eis o caminho a seguir.

Serafina disse...

Penso que íntimamente sabemos sempre o que é a Verdade e o que não é. Porque a verdade toca-nos no tal poço sem fundo, referido por Vergílio Ferreira.

alf disse...

As pessoas mais amáveis têm uma vantagem; mas entender isso como uma vantagem evolucionária ou cultivar isso por causa da vantagem individual que daí pode resultar é um pouco preverter a questão. Em todo o caso, é útil - por exemplo, evitam-se erros culturais e educacionais como se praticavam tradicionalmente em Portugal, onde se considerava que as pessoas não se devem tocar, por exemplo.

A Evolução é algo muito complexo, que funciona com base em processos de grande inteligência e complexidade; o Darwin deu uma contribuição mas é apenas isso, a evolução está para a selecção natural como um supercomputador para a tabuada.

Entender melhor a Evolução é muito importante para evitar, por exemplo, os erros que têm sido cometidos a partir das interpretações simplistas das ideias de Darwin como, por exemplo, a eugenia.

Carmo disse...

"É mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que à ponta da espada." já dizia Shakespeare...

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