sexta-feira, março 26

Os direitos das crianças, por Pedro Strecht

“Se se fizerem duas simples perguntas a um membro dessa geração: ‘como quer que seja o mundo daqui a cinquenta anos?’ e ‘o que quer que seja sua vida daqui a cinco anos?’, as respostas serão quase sempre precedidas por: ‘desde que ainda haja um mundo’ e ‘desde que eu ainda esteja vivo’. Nas palavras de George Wald, ‘aquilo com que nos defrontamos é uma geração que de forma alguma está segura de ter um futuro’. Pois o futuro, segundo Spender, é como uma bomba-relógio enterrada, cujo tique-taque soa no presente. À frequente questão: ‘quem são eles, esta nova geração?’, pode-se estar tentado a responder: ‘aqueles que ouvem o tique-taque” (ARENDT, 1969, p. 22) 


O texto que se segue é de Pedro Strecht, pedo-psiquiatra, do livro Crescer Vazio, 3.ª edição, 1998. O Outro acrescentaria ao texto que "Todas as crianças têm o direito de acreditar que existe um futuro." O Outro acredita ainda que, se estes direitos fossem respeitados, não haveria violência nas escolas.



  • Todas as crianças com mais de cinco anostêm direito a desabafar.
  • Todas as crianças até aos onze ou doze anos têm direito a andar grátis no Carrocel quando estão de férias.
  • Todas as crianças que andam na Escola têm direito a serem alegres, terem amigos e a brincarem com os outros. Têm direito a ter uma Professora que não grite com elas.
  • Todas as crianças têm direito a ver o mar verdadeiro, especialmente em dia de maré vazia.
  • Todas as crianças têm direito a, pelo menos uma vez na vida, escolher um chocolate que lhes apeteça.
  • Todas as crianças têm direito a terem orgulho na sua existência.
  • Todas as crianças têm direito a pensar e a sentir como lhes manda o coração, até serem velhas, aí com uns vinte anos.
  • Todas as crianças têm direito a terem em casa o Pai e a Mãe, os irmãos, se houver, e comida. Se o Pai e Mãe não conseguirem viver juntos têm direito a que cada um deles respeite o outro.
  • Todas as crianças têm direito a deitarem-se no chão para ver as nuvens passar, imaginando formas de todos os bichos do Mundo combinadas com as coisas que quiserem (por exemplo, um cão a andar de patins ou uma girafa de orelhas compridas).
  • Todas as crianças têm direito a começarem uma colecção não interessa de quê.
  • Todas as crianças têm direito a chupar o dedo indicador que espetaram num bolo acabado de fazer ou então lamber a colher com que raparam a taça em que ele foi feito.
  • Todas as crianças têm direito a tentarem manter-se acordadas até tarde numa noite de Verão, na esperança de verem uma estrela cadente e pedirem três desejos (a justiça devia fazer acontecer sempre pelo menos um).
  • Todas as crianças têm direito a escrever ou a falar uma linguagem inventada por elas (ou que julgam inventada por elas), como por exemplo a «linguagem dos pês»: «apalinpingupuapagempem dospos pêspês».
  • Todas as crianças têm direito a imaginar o que vão querer fazer quando forem grandes (habitualmente coisas extravagantes) e a perguntar aos adultos «o que queres ser quando fores pequenino?».
  • Todas as crianças têm direito a dormir numa cama sua, sentindo o cheiro da roupa lavada, e a terem um espaço próprio na casa, pelo menos a partir do ano de idade.
  • Todas as crianças têm direito a passear na rua tentando pisar apenas o empedrado branco (ou só o preto); em opção, têm direito a fazer uma viagem contando quantos carros vermelhos passam na faixa contrária.
  • Todas as crianças meninos têm direito a, pelo menos uma vez na vida, perguntar a uma menina «queres ser a minha namorada?» e todas as meninas têm direito a, pelo menos uma vez na vida, responder, «sim,quero».
  • Todas as crianças têm direito a ouvir um adulto contar pelo menos uma destas histórias: Peter Pan, o Principezinho ou o Príncipe Feliz.
  • Todas as crianças têm direito a ter alegria suficiente para imaginar coisas boas antes de dormirem e depois, a sonhar com elas.
  • Todas as crianças têm direito a ter um boneco de peluche preferido, especialmente quando velho, já lavado e mesmo com um olho a menos.
  • Todas as crianças (especialmente se já adolescentes) têm direito a usar os ténis preferidos, mesmo que rotos e com cheiro tóxico.
  • Todas as crianças têm direito a poder tomar banho sozinhas e a experimentar mergulhar na banheira contando o tempo que aguentam sem respirar.
  • Todas as crianças têm direito a jogar aos polícias e ladrões, preferindo inevitavelmente serem ladrões.
  • Todas as crianças têm direito a ter um colo onde se possam sentar, enroscar como numa concha e receber mimos.
  • Todas as crianças têm direito a nascer iguais em direitos.
  • Todas as crianças têm direito a conhecer o sítio onde nasceram e a visitá-lo livremente.
  • Todas as crianças têm direito a não ficarem sozinhas a chorar.
  • Todas as crianças têm direito a viver num País que tenha um Ministério da Infância e Juventude, que olhe verdadeiramente pelo crescimento afectivo e bem-estar interior (sem preconceitos adultocêntricos ou hipocrisias com ares de cromo abrilhantado).
  • Todas as crianças têm direito a acreditar que têm um adulto que olha por elas e as ama sem condição prévia (nem que seja Nosso Senhor).
  • Todas as crianças têm direito a viver felizes e a ter paz nos seus pensamentos e sentimentos.

2 comentários:

Magno Jardim disse...

Obrigado pelo post,
não poderia estar mais de acordo.

Um belo dia para si Serafina.

Glimpse disse...

Humm... e os adultos que se revêm nestes direitos e ainda fazem algumas destas coisas, será que ainda são crianças? Eu acrescentava que todas as crianças têm direito a fazer corridas de carrinhos de supermercados num estacionamento quase vazio...e gritar tinoni tinoni... mesmo que sejam adultos!

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